APL 669 O Milagre de Santiago

Em pequeno planalto situado entre os contrafortes da Serra do Figueiredo e Várzea dos Cavaleiros, e a Ribeira da Sertã, mora, desde tempos remotos, branca capelinha dedicada ao culto católico sob a invocação de Santiago.
 Singela e pobre em sua fábrica como mais o não pode ser, a modéstia de traça é compensada pelo formoso panorama que, do seu terreiro, se desfruta por dilatado horizonte.
 Vizinha das povoações de Mosteiro Cimeiro e Mosteiro Fundeiro ou Mosteiro de Santiago — noutros tempos Mosteiro dos Negros (1) — não se arrependerá do sacrifício da viagem ao local quem, por dia sereno, possa extasiar-se na contemplação dos vales profundos e sem fim, emoldurados por extensos e verdejantes pinheirais.
 Perfeita concordância com a formosura da paisagem, os povos traduzem as suas ambições e os seus desejos de paz, de bom viver e de sã harmonia nesta quadra:

Santiago do Mosteiro,
Eu não te peço fazenda,
Salvação para a minha alma
E gente com quem me entenda.

 Crentes no poder imenso de Santiago, exaltam-lhe os feitos e as virtudes, e contam, como verdade indiscutível, o seguinte:
 «No Pego da Ribeira da Sertã, em pleno ermo, longe da vista dos homens, tomava banho, em certo dia, um rapaz crente e devoto do Santo.
 Obra do demo, redemoinho ou caso fortuito, o moço em certa altura começou a sentir que as forças lhe faltavam e a reconhecer que não poderia salvar-se pelo seu próprio esforço.
 Pegou-se com o apóstolo.
 — Santiago me acuda, disse.
 Santiago, ouvindo-o, montou rápido o seu cavalo fogoso e este, com uma única passada: uma pata no Ribeiro (que do Santo tomou o nome) e outra na margem da Ribeira da Sertã, atingiu o Pego.
 O Santo estendeu o seu pau ou cajado ao rapaz, que a ele se agarrou e assim se salvou».
 A veracidade do facto é ainda hoje atestada, afirmam, pela impressão da pata do cavalo na safra (2) da margem do ribeiro, só o não sendo já na margem do Pego por os últimos vestígios que lá existiam terem sido destruídos por um zorro (3) que ali funciona há anos.
 Branquinha, singela e pobre, com a sua imagem de pedra, antiga, e tão antiga que não é fácil fixar-lhe a origem, a capelinha de Santiago, entre formosa moldura de verde pinho a dominar o lindo horizonte, seria, só por si, um milagre, se outros maiores, como o que deixamos narrado, o povo não registasse em sua santa fé.

 

(1) Discute-se a origem da designação, de que o povo não gosta. O Sr. Padre António Lourenço Farinha (A Sertã e o seu Concelho, pág. 160 e seguintes) é de opinião que ela provém de o sítio ter sido habitado pelos monges de São Bento, conhecidos por monges negros. Veja: Sangue Negro e Sangue Vermelho, no presente volume.
(2) Rocha, no significado local.
(3) Zorro — lugar por onde escorregam os troncos dos pinheiros que são transportados pela corrente da água dos rios Zêzere e Tejo. Não há muitos anos, funcionava um no Estreito. As madeiras eram lançadas nas ribeiras de Amioso e da Sertã que as transportavam ao rio Zêzere e este, por sua vez, as levava á Praia do Ribatejo.

Source
DIAS, Jaime Lopes Contos e Lendas da Beira , Alma Azul, 2002 , p.92-94
Place of collection
Várzea Dos Cavaleiros, SERTÃ, CASTELO BRANCO
Narrative
When
20 Century, 50s
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography