APL 1833 Lenda de Castro Marim

Diz-se que, na altura em que os árabes ainda estavam aqui fixos no Algarve, há um senhor dessa zona de Castro Marim, que teria sido levado, como cativo, para o norte de África. Foi levado como cativo, permaneceu em Tânger, durante alguns anos, só que ele, coitadito, todas as noites rezava a Nossa Senhora dos Mártires para que ela fizesse tudo para que ele, um dia, voltasse à sua terra.
 Era bem comportado, era uma pessoa muito dócil, aguentou sempre todos os sofrimentos e os trabalhos forçados, aquilo que os árabes exigiram dele. Ele era um indivíduo que sabia da pesca. Era um indivíduo, por conseguinte, que estava ligado à faina marítima e daí que os árabes, muitas vezes iam colher até os ensinamentos, conselhos acerca de determinadas formas de apanhar e até se diz que havia uma coisa que ele costumava ser exímio: era na apanha do polvo. Com os alcatruzes, os tais alcatruzezinhos, com o buraquinho no fundo. E, então, diz que esse homem, aquilo que ele fazia muito, quando ele ainda vivia nos esteiros do Guadiana, era apanhar o polvo. E, então ele ensinou a apanha do polvo a outros marítimos árabes.
 O homem era muito dócil, rezava muito e há uma altura em que este homem, pois a sua fé nunca vacilou, ele teve um sonho e o sonho foi este. Foi ele ter sonhado que, quando ele estivesse acorrentado (porque, todas as noites, para ele não fugir, os árabes faziam o seguinte: atavam os cativos, punham-lhe uma corrente ao pé), ele dormia a sua enxerga, mas sempre atado, que era para durante a noite, quando as sentinelas árabes estivessem a dormir eles não fugissem. Então ele teve um sonho: de que, se a sua fé continuasse a ser muito forte, Nossa Senhora o vinha buscar. E ele vivia sempre com essa ideia.
 O que é que acontece?
 Sabe-se que um belo dia, uma arca, com um homem deitado em cima da arca, com uma corrente atada a um pé, apareceu a boiar, de manhã muito cedo, no Guadiana. Os pescadores viram o homem a dormir. As pessoas olharam.
 - Mas o que é aquilo, que é aquilo?
 Aproximaram-se, o homem acorda e toda a gente diz:
 - Tu, donde é que vieste?
 E o homem assustado. Só que ele ouve cantar o galo e diz:
 - Eu estou em terra cristã.
 E, então, o homem contou que tinha-se deitado, tinha, como todas as noites fazia, rezado a Nossa Senhora dos Mártires, e pronto, tinha adormecido, com a corrente ao pé, como faziam. E como estavam no Inverno, a enxerga era no chão e o chão era muito húmido, os próprios árabes tinham umas caixas grandes de madeira, que serviam de salgadeiras para salgarem o peixe e, então, como estavam no Inverno, tinham a enxerga em cima da arca. E ele tinha-se deitado em cima da arca, com a tal dita corrente ao pé e tinha adormecido. Nossa Senhora tinha feito vi-lo sobre a água e trouxe-o à sua terra, em Castro Marim.
 O homem chega aí e, não há dúvida nenhuma, tinha sido um milagre. A corrente é tirada e a corrente está na Igreja de Nossa Senhora dos Mártires.

 O homem estava deitado e, em geral, os prisioneiros tinham o tornozelo atado á corrente e também havia a sentinela que tinha a outra parte da corrente atada ao pulso. De maneira que o homem tinha a corrente atada ao pé e a sentinela a outra parte da corrente atada ao pulso. Só que ele veio com o mouro. Então, a zona em Castro Marim, aonde encontraram a arca, que é um esteiro do Guadiana, ele deitado e o mouro ao lado dele, ambos ligados com a mesma corrente, chama-se hoje o mouro, chama-se Mouro Vaz. Essa terra chama-se Mouro Vaz, porque o mouro chamava-se Vaz.

Source
AA. VV., - Arquivo do CEAO (Recolhas Inéditas) , n/a,
Year
2003
Place of collection
FARO, FARO
Collector
Paula Almeida (F)
Informant
Maria Filomena Ferreira (F), 58 y.o., FARO (FARO),
Narrative
When
20 Century,
Belief
Unsure / Uncommitted
Classifications

Bibliography